Professor Camponês
Por: José Alves Nunes - Bacharel Licenciado em Filosofia - PUC/MINAS e Filosofia da Educação - ISTA/MINAS / nunespuc@yahoo.com.br
Por: Elinete Santos Andrade - Licenciada em Pedagogia - UNOPAR / PR e Letras - UNIMES / SP; Pós Graduada Psicologia da Educação - FRFCL/BA net.a_23@yahoo.com.br
Para
compreender o agir de um professor camponês é necessário antes conhecer a
maravilhosa história do educador James Aggrey. Aggrey foi um homem engajado nas
causas sociais e acreditava que a libertação do povo só seria efetiva por meio
da formação/organização político-social. Estudou em escola metodista e, desde cedo,
percebeu a importância dos professores nessa libertação. Seres que ele definia
como extraordinários.
Ao
se tornar educador e líder político na pequena República de Gana, esse educador
contou um história maravilhosa - “A águia
e a galinha” - para fazer frente aos seus compatriotas que defendiam que o
melhor era continuar colonizados pelos ingleses. Ao perceber o jogo de
interesse que visava alienar o oprimido e exaltar o opressor ele contou essa história
que, como tantas outras, tem o poder de mostrar muitas e novas visões de mundo a
depender do tempo, do lugar e de quem a conta. A metáfora tem sempre esse poder
de se renovar e oferecer outras possibilidades sempre.
Nessa
história a águia e a galinha oferecem muitas reflexões. Mas outras duas, menos percebidas,
imprimem duas antíteses profundas e fascinantes igualmente, a do naturalista e a
do camponês. Esse faz a águia
acreditar que é galinha e não aceita outro ponto de vista diferente do seu.
Seus métodos e ações são muito comuns nas várias esferas sociais.
Suas ações pedagógicas se baseiam na opressão, na domesticação e na negação
plena do outro. Ele não só faz a águia acreditar que é galinha, a faz comer
milho e ração própria para galinha.
Nas
palavras do camponês sobressaem sua visão e práticas deterministas sobre a
águia:
“(...)
Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um
pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia.
Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para
galinhas. (...) Disse o camponês. É águia, mas eu a criei como galinha. Ela não
é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de
quase três metros de extensão. (...) Ela virou galinha e jamais voará como
águia. (...) Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha! (...) O camponês
sorriu e voltou à carga: Eu lhe havia dito, ela virou galinha!” [Boff, 2001]
Nesse trecho e em
toda a história mostram que o camponês já traz dentro de si a predisposição de
encontrar um filhote para mantê-lo cativo. Ao entrar na mata e encontrar o
filhote de uma águia ele assume de maneira consciente o resultado/maldade de
sua ação. Ele está disposto a afastar a pequena águia de sua essência, afastá-la
daquilo que a define diferente de todos os outros animais. Mesmo que aquele
filhote de águia fosse domesticado e condicionado em outro ser, que não
galinha, ainda sim ele seria privado/afastado da sua majestade.
Transformar o
aluno naquilo que não está na sua essência, na sua vocação é torna-lo mediano e
infeliz. A transformação que parte somente do agente externo é violência, é
domesticação. O aluno não deve ser transformado em algo por conta do status social,
geográfico ou econômico. Sem considerar as suas aptidões e potencial, o
fracasso cedo ou tarde surgirá.
Transformar águia em galinha é tão cruel quanto transformar galinha em águia. Ainda que a águia
fosse criada como leão, o rei da selva, fazendo valer o seu ‘status quo’ animal
ainda sim seria violência. Ninguém consegue realizar, por muito tempo, tarefas
que não lhe dizem nada. A convivência não acontece e o relacionamento um fardo
pesado demais para ser carregado. Ele [camponês] é a personificação daquele “técnico
da educação” que faz experiência ás custas das crianças (Artur da Távola).
O professor
camponês se orgulha em transformar aluno águia em simples galinha. Ele não se
contenta em simplesmente cortar as asas de seus alunos, os destrói de dentro
para fora. Fazem seus alunos acreditarem que não voarão muito alto e que nunca
serão ninguém na vida. Pior, ensina seus alunos a voarem, ciscarem e comerem
milho como galinha.
A sua “pseudo
pedagogia” não tem limites para negar e domesticar o outro. Ao transformar a
águia - com suas asas de quase três metros, seus olhos de visão extraordinária,
seu bico e suas garras potentes - em simples galinha prova do que ele é capaz. Se
a sua “pedagogia” transforma águia em galinha é capaz de resultados bem mais
cruéis com filhotes, aparentemente, menos imponentes. Às vezes certos métodos e
ações pedagógicas são capazes de criar verdadeiros Frankenstein.
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