TODO PROFESSOR[A]
É IMORTAL
É IMORTAL
“A imortalidade é uma espécie de vida que
nós
adquirimos na memória dos homens”, (Diderot)
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Certa
vez li uma matéria a respeito de um escritor famoso que depois de décadas sendo
criticado por seus livros tidos, por alguns, como “esotéricos”, tornara-se
membro da Academia Brasileira de Letras [ABL]. Próximo à data da sua posse as
críticas de outrora já não existiam, todos só queriam saber do acontecimento e
como acontece na alquimia, as informações pareciam transformar-se em ouro. O
mundo queria saber, inclusive os antigos críticos, tudo sobre a sua posse. O
número da sua cadeira, quais os imortais a ocuparam antes. Pareciam pecadores
quando deixam o confessionário. Soube-se mais tarde que a cadeira a ocupar
seria a de número 21 e que entre os imortais sucessores estavam: Joaquim
Serra [patrono], José do Patrocínio [fundador], Mário de Alencar, Adonias
Filho, Dias Gomes e Roberto Campos.
Aquelas manifestações eram justas e chegavam a tempo de corrigir as injustiças cometidas àquele escritor que tem suas publicações traduzidas para mais de 69 países. Na infância/adolescência seus livros me iniciaram na leitura prazerosa e, ainda hoje, sempre que posso volto a eles e sou tomado de novas experiências e saudosas lembranças. A matéria me fez pensar nas contradições humanas e nos seus enganos. Aquele momento não era somente daquele mais jovem imortal da academia, mas de todos aqueles[as] que não desistiram por causa das críticas. Também daqueles[as] que não as suportaram e deixaram seus trabalhos pelo caminho.
Depois daquele dia
nunca mais deixei de pensar nos muitos professores[as] que dedicaram e dedicam
suas vidas a educação e depois de aposentados[as] são relegados ao
esquecimento. Pensei, desde então, que todo professor deveria, em seus lugares de origem,
também receber o título de imortal pelos relevantes serviços prestados a
educação. Diferentemente de toda a pompa que envolveu o jovem
membro da academia na posse, a dos professores[as] dos grotões do país seria mais
simples, mas de significado imensurável. Em nosso país as coisas destinadas à
promoção e valorização dos professores[as] ainda são relegadas ao esquecimento
ou não passam de promessas.
Passei a desejar, depois
daquela posse, que toda escola deveria ter um memorial reservado aos
professores[as] aposentados[as]. Um espaço onde ficaria exposta a sua foto com
o ano de início e término de sua jornada para que os visitantes contemplassem o
rosto de um verdadeiro imortal. E, abaixo da foto o seguinte letreiro: ‘sobre
os ombros deste[a] gigante, muitos conseguiram enxergar melhor e mais longe o
mundo’.
Aquele lugar, depois de
abençoado, em muito pouco tempo receberia cheiro e status de sagrado. Alguns
espaços não precisam de muita pompa nem de suntuosidade para alcançar fulgência, a sua riqueza e
valor nascem dos seus homenageados. Contudo, ainda era pouco para esses
gigantes da educação. Além desse espaço místico implantado nos grandes e
pequenos municípios, seria necessário um dia de feriado garantido em lei, Lei Orgânica do Município. Um
dia para lembrar e homenagear as/os imortais da educação do município.
Quem já esteve em uma
câmara de vereador nos municípios do país, sabe que ela tem um espaço dedicado
aos seus membros. Nessas casas legislativas seus membros com apenas quatro anos
de mandato já tem direito de expor sua foto no mural. Bem, se vereador que não
é unanimidade tem tal privilegio, muito mais deveria ter o professor[a] depois de
vinte e cinco ou mais anos de dedicação.
Além da exposição da foto,
melhor seria quando da data da aposentadoria, todo professor[a] fosse
homenageado como acontece em algumas corporações. A escola, os alunos, os pais
e as autoridades – políticas, religiosas - fazendo belos discursos e gestos em
agradecimento pelo tempo de serviços dedicado a educação da cidade. Hino
nacional tocando, culto ecumênico, um dia inteiro dedicado ao professor
aposentado que dedicou às crianças e aos jovens os melhores anos de sua vida.
E, ao final das comemorações o último grande gesto, a exposição da foto ao
lado dos demais imortais.
Tornar-se um imortal em
vida foi busca incansável de muitos pensadores e artistas. Homens e mulheres
que por meio da música, da literatura, da política, da pintura, da educação se
tornaram abençoados com a imortalidade. A Nona Sinfonia imortalizou o ‘surdo’
Beethoven, as Obras Filosóficas imortalizaram os gregos Platão e Sócrates, Dom
Quixote ao retratar a decadência da idade média imortalizou Miguel Cervantes e
a Mona Lisa com seu sorriso enigmático imortalizou Leonardo da Vinci. Esses são
alguns, de muitos, que ficaram imortalizados por suas obras.
A religião cristã prega a
imortalidade desde sempre. Diz que aquele que crê até o fim, viverá além da
morte. Esse princípio de vida eterna revolucionou o mundo e a vida humana.
Muitos demoraram a entendê-la e ainda hoje não é fácil, senão pela fé. “A imortalidade
é um eterno processo. A morte e a
imortalidade”, diz Kundera, “formam uma dupla indivisível, mais bela que Marx e
Engels, que Romeu e Julieta, que Laurel e Hardy”.
Pela fé os professores[as] já vivem a imortalidade. Por que no Brasil os professores em sua maioria
professam a fé cristã e mesmo os que não professam tem uma esperança para além
deste mundo. Contudo, diferentemente da espiritual a imortalidade terrena se dá
pelo reconhecimento da obra realizada.
Todo professor merece ser
reconhecido pelo o que faz no dia a dia, mas aqueles que aposentam neste ofício
merecem muito mais, merecem o título de imortal. Merecem não pela obra de
reconhecido valor literário, exigida pela ABL, que a maioria ainda não
escreveu. Nem pelos tratados filosófico-políticos que ainda não publicaram. Nem
pelas “Mona Lisas” que ainda não pintaram.
As obras destes imortais
são muito mais preciosas e de valores imensuráveis. São obras escritas,
pintadas, gravadas na alma de homens e mulheres espalhadas pelos quatro cantos
das grandes e pequenas cidades. Essas obras podem ser encontradas
nas prefeituras, nas câmaras legislativas, nos hospitais, nos campos, nos
lares, nas repartições públicas. Ou seja, onde houver alunos ou ex-alunos exercendo alguma atividade no
município alí está a razão da imortalidade de um professor.
A imortalidade alcançada
por Beethoven, Leonardo Da Vinci, Platão e Sócrates em séculos e até milênio é
bem diferente de tantos outros que exerceram ofícios semelhantes. Tudo
depende de como se realiza o ofício. Esboçar a planta de uma casa e colocá-la
de pé qualquer arquiteto é capaz. Contudo, o que Oscar Niemeyer realizou vai
para além de simples arquitetura, vai para a história. Não é o simples
fazer por fazer que tornam os professores[as] imortais, mas aquilo que fazem
diferenciados dos demais, como pessoas únicas que são é que os tornam vivos
para sempre.
De modo que todo
professor[a] aposentado[a] já é digno do título de imortal. O que vai garantir
a sua memória viva, nos séculos vindouros, é o conjunto da obra realizada nos
vinte e cinco anos de dedicação. O Apóstolo Paulo deixou uma receita pronta que
continua viva para quem anseia que seu trabalho seja duradouro: “ainda que conhecesse todos os
mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que
transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria”.
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Por: José Alves Nunes - Bacharel Licenciado em Filosofia - PUC/MINAS e Filosofia da Educação - ISTA/MINAS / nunespuc@yahoo.com.br
Por: Elinete Santos Andrade - Licenciada em Pedagogia - UNOPAR / PR e Letras - UNIMES / SP; Pós Graduada Psicologia da Educação - FRFCL/BA net.a_23@yahoo.com.br







