Mourão revela que Moro foi convidado durante a campanha, políticos e juristas reagem
O caso da provável nomeação de Sergio Moro como Ministro da
Justiça ganha nova dimensão com a notícia de que o convite foi feito por Jair
Bolsonaro durante a campanha eleitoral. A revelação foi feita pelo general
Hamilton Mourão, vice-presidente eleito, em entrevista aos jornais Valor
Econômico (aqui)
e Folha de S. Paulo: "Isso (o convite) já faz tempo, durante a campanha
foi feito um contato", disse Mourão nesta quarta-feira, ao falar sobre o
convite a Moro, detalhando que o contato foi feito por Paulo Guedes a pedido de
Bolsonaro. Em 1 de outubro, menos de uma semana antes do primeiro turno, Moro
quebrou o sigilo da delação premiada de Antonio Palocci e ordenou sua
divulgação para a imprensa com o objetivo de prejudicar a campanha do PT (aqui).
Moro está
no Rio de Janeiro desde as 7h30 desta quinta-feira (1) para reuinir-se com
Bolsonaro e definir sua ida ao Mnistério da Justiça. O convite de Bolsonaro e a
reação entusiasmada de Moro está causando estupefação no meio jurídico, na
política e até na imprensa conservadora que sempre apoiou a Lava Jato, agravado
agora com a revelação de que houve uma trama durante a campanha eleitoral.
O líder do
PT na Câmara, deputado Paulo Pimenta, reagiu à entrevista de Mourão no começo
da manhã: É de uma gravidade espantosa a revelação de Mourão. É prova
testemunhal da relação criminosa e perversa entre a Lava Jato e Bolsonaro.
Quando Moro vazou a delação de Palocci, já sabia que se Jair
Bolsonaro fosse eleito ele seria ministro".
O ex-ministro da Justiça no governo Dilma, Eugênio Aragão,
falou sobre o caso ao Brasil de
Fato: "Isso apenas confirma tudo o que a gente disse até hoje, de que
verdade ele não era juiz. Ele estava atrás de uma vantagem pessoal para sua
carreira, cultivando a sua vaidade e, na verdade, chegou onde ele conseguiu
chegar".
Segue a
reportagem:
A opinião é
compartilhada por Cláudia Maria Barbosa, professora de direito constitucional
da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Mas ela alerta que,
após empossado no cargo político, os abusos de Moro não terão o mesmo
tratamento que tiveram na magistratura.
"A
ocupação, pelo juiz, do Ministério da Justiça, escancara a politização indevida
do Judiciário, e isso já é um sinal para que a população e a própria imprensa
esteja atenta. Por outro lado, o Ministério da Justiça não é o Judiciário. Então,
as garantias de imunidade que, enquanto juiz, o Sérgio Moro teve quando cometeu
excessos e abusos, ele não teria dentro do Ministério da Justiça, afinal é um
cargo de livre nomeação, mas também de livre destituição".
Aragão
relembra os vários casos controversos em que o juiz Moro extrapolou suas
atribuições para "perseguir" Lula e seus familiares.
"Do
ponto de vista ético, é algo lamentável. Do ponto de vista da história do
senhor Moro, na verdade, isso prova apenas que o crime compensa. O que ele tem
feito ao longo do processo da Lava Jato em relação ao Lula e sua família foi
criminoso. Abriu sigilos que foram quebrados de forma ilegal, fora do período
autorizado, deu publicidade a conversas particulares entre Dona Marisa e seu
filho. Moro foi tudo menos um juiz. Ele foi mais um carrasco do que um juiz.
Depois, aquele episódio em que ele protagonizou uma disputa com o desembargador
Favretto, saindo de suas férias, despachando sem qualquer competência e
determinando a Polícia Federal a não cumprir uma decisão de um desembargador.
Por fim, também, no que diz respeito a este desafio, Moro não está no tamanho
dele. Ele é uma pessoa pequena, que prova apenas a pequenez do governo ao qual
ele irá servir".
O
ex-ministro afirma que o aceitamento de Moro ao cargo pode servir como mais um
argumento de suspeição do juiz Moro para julgar os processos relacionados ao
ex-presidente Lula. Mas pondera que a decisão final caberá às cortes
superiores, que até o momento não têm assumido sua responsabilidade.
"Aqui,
mais uma vez, nós teríamos uma arguição de suspeição do Sérgio Moro. Já foram
interpostas várias arguições de suspeição. Todas elas flagrantes, por opiniões
que ele deu publicamente, pela forma como ele procedeu. Podemos até arguir, mas
resta saber se o Judiciário vai assumir a sua responsabilidade. Infelizmente,
até agora, não fez".
