Por: José A.
Nunes
Bacharel Licenciado em Filosofia -
PUC/MINAS
Filosofia
da Educação - ISTA/MINAS
A eleição presidencial deste
ano já revela algumas particularidades incomuns depois da redemocratização do
país. De imediato três chamam a atenção, por conta das prováveis consequências
que já gritam aos nossos ouvidos. A primeira nasce do fato de o candidato
melhor colocado nas pesquisas de opinião se encontrar preso, executando estratégias
que têm revelado a parcialidade do judiciário e seu ativismo de judicialização da
política.
Em seguida, temos a consistente
campanha de um militar sem papas na língua e que pode, sem dinheiro e grandes
coligações, devolver o poder do país aos militares, democraticamente. Penso, que
a vitória de qualquer um deles levará o país para um momento que, a priori, nenhum vidente ou profeta é
capaz de antever, nem em seus melhores dias de inspiração/transpiração. Mas,
isso é assunto para outro momento.
O que nos interessa agora é
a terceira particularidade, ou seja, de que a escolha do vice na corrida presidencial
tornou-se problema nacional. Essa questão ficou mais latente quando as convenções
presidenciais aconteceram e os nomes dos auxiliares ainda eram desconhecidos. Os
cortejados (as) eram deixados pelo caminho ou se declinavam do honroso convite.
Os líderes e partidos demonstravam, ainda que não às claras, que a escolha seguiria
novo rito e já não podia ser nem da banda podre dos partidos nem entre aqueles
chegados à conspiração.
Na verdade, justiça seja feita, o imaginário popular sempre maculou
de desconfiança a figura do vice, mas a maneira como Michel Temer chegou ao
poder fortaleceu em muito esse estigma. Além de se juntar ao que de pior existe
na política, dias antes publicara aquela ridícula carta, pior até que os lendários
bilhetinhos de Jânio Quadros, onde se dizia injustiçado e cansado de ser mero vice
decorativo. Esqueceu-se de voltar à Constituição Federal no art. 79 que diz: “o
vice-presidente da República auxiliará o presidente(a) sempre que por ele/ela
convocado para missões especiais. Ou ainda tomar para si parte da definição de
John Adam: “o mais insignificante lugar que a criatividade do homem podia
inventar”, mas dizia também: “Não sou nada, posso ser tudo”.
Na história do Brasil nunca
faltaram conspiradores e os que não são nada, mas dizem insistentemente para si:
“posso ser tudo”. Lembro-me aqui daquele presidente do senado que gritou: “Assim
sendo, declaro vaga a Presidência da República.” Com essas palavras, Auro Moura
Andrade, anunciou a um tumultuado Congresso Nacional, na madrugada de abril de
1964, que João Goulart não era mais o presidente do Brasil. Ao decretar a vacância
da presidência com Jango em Porto Alegre e na gritaria que se seguiu à fala de
Auro, o deputado Almino Afonso ouviu Tancredo Neves, líder do governo na
Câmara, gritar: “Canalha! Canalha!”.
John Adams não chegou a conhecer
a nossa Carta Magna, mas diferentemente de Michel Temer sempre entendeu que
vice não passa de um auxiliar, seja de luxo seja decorativo, e só deve sair da “caixinha”
quando convocado pelo presidente (a) e para missões especiais.
O vice decorativo ao se esquecer ou não praticar tais princípios tornou-se o presidente mais impopular da história do país e a gozar de
ostracismo politico, ainda no exercício do poder, pelos seus iguais. Pior, levou os presidenciáveis a adotarem novos critérios na escolha dos vices, ou seja, em seus respectivos
partidos. Para não permitir que o quarto vice, depois da redemocratização e do
P/MDB, assuma o destino da nação ao apossar com outros conspiradores daquela última
parte da frase: “não sou nada, posso ser
tudo”.
