FLÁVIO TAVARES ETERNIZA A TRAGÉDIA DO GOLPE EM TELA DE TRÊS
METROS
Artista plástico
paraibano expõe "Brasil, O Golpe: A Ópera do fim do mundo”
Flávio Tavares, artista plástico
paraibano, expôs no Sesc em João Pessoa (dia 27), um painel em óleo sobre tela,
de três metros, contando a tragédia brasileira que culminou no Golpe e seus
desdobramentos. Segundo o pintor "é uma carnavalização da linguagem
gráfica, aonde eu pego todo o momento, o que eu senti pelo assassinato de
Marielle, com essa figura bebendo água, greco-romana, no Rio Lete, o Rio do
Esquecimento, e que tem o Hades, quer dizer o inferno grego da Divina Comédia,
com Caronte no barco, e a luz ainda iluminando essa sessão de tortura da
Dilma."
Ele ressalta que a tortura da
ex-presidente, na sua juventude, foi esquecida, assim como a morte da vereadora
Marielle Franco já está caindo no Rio do Esquecimento. Alguns outros seres que
habitam as mitologias, a sereia, o pássaro vermelho sendo ameaçado pelo que
parece um Leviatã, tantas vezes evocado por Castro Alves no poema Navio
Negreiro, também compõem um relato onírico da obra.
O painel tem algumas cenas
importantes que se isolam e dialogam entre si. Em formato piramidal, na sua
base temos O Banquete dos Poderosos, com a presença de Temer e várias figuras
do judiciário, em especial o juiz Sérgio Moro se banqueteando avidamente, enquanto
várias pessoas, miseráveis, esperam migalhas embaixo da mesa. Em pé, uma mulher
negra servindo uma senhora fidalga, representando a elite brasileira, branca e
impiedosa. Flávio destaca que o tema do painel é a injustiça "e os tantos
tropeços que o Brasil tem dado em nome de um processo que eles estão chamando
de Democracia, mas a gente vê que há uma transição forte ainda a se vivenciar
para a gente ver isso acontecer."
Acima, ao centro da pirâmide,
representando o poder em cima do povo, vemos a ama de leite segurando uma
criança loura, e ao lado, a fera que ainda habita o Brasil. "Esse
preconceito de raça e classe, esse ódio que se tem do povo, e essa
representação aqui, tão bonitinha para quem gosta de Monarquia, mas
extremamente perversa no mundo inteiro", reflete o artista.
Logo atrás da ama de leite, nas
sombras, como um sopro gelado da história, o pano de fundo da tragédia, vemos
os traços de um pelourinho, uma pessoa amarrada a um poste. Flávio denuncia, no
entanto, que isso aconteceu no Rio de Janeiro há pouco tempo. Destaque para o
guardador de rebanhos ao lado esquerdo, que, serenamente, contempla a pomba da
paz. "É a luta que estamos travando junto à ONU para soltar o Lula. Ao
lado dele está o povo e os carneiros, é o guardador de rebanhos, O
Peregrino."
Um personagem que pode passar despercebido,
mas que, no meio das centenas de referências, do fabulário nordestino aos
clássicos ocidentais, bem no meio de todo o delírio dantesco, percebemos a
(oni)presença da Casa Grande. Casa colonial, na sobriedade e riqueza do passado
dos homens brancos e donos das almas. Um passado tão remanescente, às vezes até
mais sofisticado, porém, perpetuando a história das atrocidades.
O pintor Flávio Tavares tem mais de
50 anos de carreira, já expôs em vários estados brasileiros e diversos países
pelo mundo. Na ocasião da vernissage do painel sobre o Golpe, houve o
lançamento do livro 'A Linha do Sonho', do Sesc Paraíba com várias de suas
obras. Cida Alves Brasil de Fato | João Pessoa (PB)

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