13 de janeiro de 2019

Professor Naturalista


Por: José Alves Nunes - Bacharel Licenciado em Filosofia - PUC/MINAS e Filosofia da Educação - ISTA/MINAS                             /                               nunespuc@yahoo.com.br 
Por: Elinete Santos Andrade - Licenciada em Pedagogia - UNOPAR / PR  e Letras - UNIMES / SP; Pós Graduada Psicologia da Educação - FRFCL/BA net.a_23@yahoo.com.br 
            
Na maravilhosa história de James Aggrey, ‘A águia e a galinha’, encontramos quatro seres instigantes em si mesmos: a águia, a galinha, o camponês e o naturalista. Esse último, penso, deveria ser o fim último de todo professor[a] amante da fina pedagogia, a que liberta e enxerga no aluno o que os demais já não conseguem ver.

A história conta que ao entrar na casa e colocar os olhos naquele pássaro criado como galinha, o naturalista diz: “Esse pássaro aí não é galinha, é uma águia”.  Diante da negativa do camponês ele retruca, ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia e este coração a fará um dia voar às alturas.

O naturalista não se contenta em simplesmente apontar e dizer que o pássaro é uma águia, ele vai além para provar a certeza que traz dentro de si. Então, ele tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse: Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, então abra suas asas e voe! A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista e olhava distraidamente ao redor.

Depois da primeira tentativa mal sucedida voltou a afirmar para o camponês com a mesma certeza de antes: ela é uma águia e uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã. No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa e sussurrou-lhe: Águia, já que você é uma águia, abra suas asas e voe! Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.

Sem que ninguém lhe falasse o naturalista percebeu de imediato o potencial daquele pássaro, porque seus olhos veem diferente da maioria e eles lhe dizem que é uma águia. Com a firmeza de quem continua acreditando mesmo quando o resultado não é o esperado diz, ela é águia e possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma última vez. No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha.

O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe! A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte. Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico grasnar das águias e ergueu-se, soberana, sobre si mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais para o alto. Voou… voou… até confundir-se com o azul do firmamento.

Professor naturalista ver seus alunos sempre como águias, mesmo e, principalmente, aqueles que foram negados, aprisionados, diminuídos. Enxerga neles para além das aparências e sabe que são potencialmente infinitos. Muitos deles nem sabem que o são, por tanto tempo vivendo domesticados é difícil continuar acreditando que tem potencial. Essa condição de domesticados, na maioria das vezes, acontece por meio de atitudes promovidas pelos próprios pais, por colegas da escola e/ou por professores camponeses.

O primeiro passo do naturalista não foi convencer a si mesmo que aquele pássaro era uma águia. Nem mostrar àquela águia domesticada que ela não era galinha. A sua primeira ação foi repreender o camponês do que ele dizia ser aquele pássaro e não aceitar como verdadeiro o seu diagnóstico. Professor naturalista não tem medo de dizer aos colegas de oficio que o aluno que eles definem como problemático, é águia. Não tem medo de dizer aos pais que o filho que eles menosprezaram durante uma vida tem um potencial inimaginável.

Professor naturalista tem a capacidade de extrair o melhor de seus alunos e os enxerga sempre enquanto potência, nunca simples ato. Enquanto potência uma semente já é uma árvore, é fruto, sombra. O importante não é ver o aluno enquanto ato, nestas condições a vontade é de largar tudo e não voltar na escola, nem aos seus alunos. Enquanto ato o aluno, de fato, não deixa de ser problemático ou rebelde ou indisciplinado e o camponês se vale desse estágio (filhote) para sentencia-lo à condição de galinha.

Depois de compreender a condição humilhante daquele pássaro e deixar claro que ele não era galinha para o camponês, é hora de convencer a própria águia. Despertar no ser domesticado a sua essência, a sua natureza primeira não é tarefa fácil e requer cuidados. Porque assim como aquele animal foi destruído de dentre para fora o da reconstrução se dará também a partir do interior.

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