20 de janeiro de 2019

Professor Camponês


Por: José Alves Nunes - Bacharel Licenciado em Filosofia - PUC/MINAS e Filosofia da Educação - ISTA/MINAS                             /                               nunespuc@yahoo.com.br 
Por: Elinete Santos Andrade - Licenciada em Pedagogia - UNOPAR / PR  e Letras - UNIMES / SP; Pós Graduada Psicologia da Educação - FRFCL/BA net.a_23@yahoo.com.br 

Para compreender o agir de um professor camponês é necessário antes conhecer a maravilhosa história do educador James Aggrey. Aggrey foi um homem engajado nas causas sociais e acreditava que a libertação do povo só seria efetiva por meio da formação/organização político-social. Estudou em escola metodista e, desde cedo, percebeu a importância dos professores nessa libertação. Seres que ele definia como extraordinários.

Ao se tornar educador e líder político na pequena República de Gana, esse educador contou um história maravilhosa - “A águia e a galinha” - para fazer frente aos seus compatriotas que defendiam que o melhor era continuar colonizados pelos ingleses. Ao perceber o jogo de interesse que visava alienar o oprimido e exaltar o opressor ele contou essa história que, como tantas outras, tem o poder de mostrar muitas e novas visões de mundo a depender do tempo, do lugar e de quem a conta. A metáfora tem sempre esse poder de se renovar e oferecer outras possibilidades sempre.

Nessa história a águia e a galinha oferecem muitas reflexões. Mas outras duas, menos percebidas, imprimem duas antíteses profundas e fascinantes igualmente, a do naturalista e a do camponês. Esse faz a águia acreditar que é galinha e não aceita outro ponto de vista diferente do seu.

Seus métodos e ações são muito comuns nas várias esferas sociais. Suas ações pedagógicas se baseiam na opressão, na domesticação e na negação plena do outro. Ele não só faz a águia acreditar que é galinha, a faz comer milho e ração própria para galinha.

Nas palavras do camponês sobressaem sua visão e práticas deterministas sobre a águia:

“(...) Era uma vez um camponês que foi à floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo cativo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Colocou-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. (...) Disse o camponês. É águia, mas eu a criei como galinha. Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão. (...) Ela virou galinha e jamais voará como águia. (...) Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha! (...) O camponês sorriu e voltou à carga: Eu lhe havia dito, ela virou galinha!” [Boff, 2001]

Nesse trecho e em toda a história mostram que o camponês já traz dentro de si a predisposição de encontrar um filhote para mantê-lo cativo. Ao entrar na mata e encontrar o filhote de uma águia ele assume de maneira consciente o resultado/maldade de sua ação. Ele está disposto a afastar a pequena águia de sua essência, afastá-la daquilo que a define diferente de todos os outros animais. Mesmo que aquele filhote de águia fosse domesticado e condicionado em outro ser, que não galinha, ainda sim ele seria privado/afastado da sua majestade.

Transformar o aluno naquilo que não está na sua essência, na sua vocação é torna-lo mediano e infeliz. A transformação que parte somente do agente externo é violência, é domesticação. O aluno não deve ser transformado em algo por conta do status social, geográfico ou econômico. Sem considerar as suas aptidões e potencial, o fracasso cedo ou tarde surgirá.

Transformar águia em galinha é tão cruel quanto transformar galinha em águia. Ainda que a águia fosse criada como leão, o rei da selva, fazendo valer o seu ‘status quo’ animal ainda sim seria violência. Ninguém consegue realizar, por muito tempo, tarefas que não lhe dizem nada. A convivência não acontece e o relacionamento um fardo pesado demais para ser carregado. Ele [camponês] é a personificação daquele “técnico da educação” que faz experiência ás custas das crianças (Artur da Távola).

O professor camponês se orgulha em transformar aluno águia em simples galinha. Ele não se contenta em simplesmente cortar as asas de seus alunos, os destrói de dentro para fora. Fazem seus alunos acreditarem que não voarão muito alto e que nunca serão ninguém na vida. Pior, ensina seus alunos a voarem, ciscarem e comerem milho como galinha.

A sua “pseudo pedagogia” não tem limites para negar e domesticar o outro. Ao transformar a águia - com suas asas de quase três metros, seus olhos de visão extraordinária, seu bico e suas garras potentes - em simples galinha prova do que ele é capaz. Se a sua “pedagogia” transforma águia em galinha é capaz de resultados bem mais cruéis com filhotes, aparentemente, menos imponentes. Às vezes certos métodos e ações pedagógicas são capazes de criar verdadeiros Frankenstein.

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