22 de novembro de 2018

TODO PROFESSOR[A] 
É IMORTAL

“A imortalidade é uma espécie de vida que
nós adquirimos na memória dos homens”, (Diderot)


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Certa vez li uma matéria a respeito de um escritor famoso que depois de décadas sendo criticado por seus livros tidos, por alguns, como “esotéricos”, tornara-se membro da Academia Brasileira de Letras [ABL]. Próximo à data da sua posse as críticas de outrora já não existiam, todos só queriam saber do acontecimento e como acontece na alquimia, as informações pareciam transformar-se em ouro. O mundo queria saber, inclusive os antigos críticos, tudo sobre a sua posse. O número da sua cadeira, quais os imortais a ocuparam antes. Pareciam pecadores quando deixam o confessionário. Soube-se mais tarde que a cadeira a ocupar seria a de número 21 e que entre os imortais sucessores estavam: Joaquim Serra [patrono], José do Patrocínio [fundador], Mário de Alencar, Adonias Filho, Dias Gomes e Roberto Campos. 

Aquelas manifestações eram justas e chegavam a tempo de corrigir as injustiças cometidas àquele escritor que tem suas publicações traduzidas para mais de 69 países. Na infância/adolescência seus livros me iniciaram na leitura prazerosa e, ainda hoje, sempre que posso volto a eles e sou tomado de novas 
experiências e saudosas lembranças. A matéria me fez pensar nas contradições humanas e nos seus enganos. Aquele momento não era somente daquele mais jovem imortal da academia, mas de todos aqueles[as] que não desistiram por causa das críticas. Também daqueles[as] que não as suportaram e deixaram seus trabalhos pelo caminho.

Depois daquele dia nunca mais deixei de pensar nos muitos professores[as] que dedicaram e dedicam suas vidas a educação e depois de aposentados[as] são relegados ao esquecimento. Pensei, desde então, que todo professor deveria, em seus lugares de origem, também receber o título de imortal pelos relevantes serviços prestados a educação. Diferentemente de toda a pompa que envolveu o jovem membro da academia na posse, a dos professores[as] dos grotões do país seria mais simples, mas de significado imensurável. Em nosso país as coisas destinadas à promoção e valorização dos professores[as] ainda são relegadas ao esquecimento ou não passam de promessas.

Passei a desejar, depois daquela posse, que toda escola deveria ter um memorial reservado aos professores[as] aposentados[as]. Um espaço onde ficaria exposta a sua foto com o ano de início e término de sua jornada para que os visitantes contemplassem o rosto de um verdadeiro imortal. E, abaixo da foto o seguinte letreiro: ‘sobre os ombros deste[a] gigante, muitos conseguiram enxergar melhor e mais longe o mundo’.

Aquele lugar, depois de abençoado, em muito pouco tempo receberia cheiro e status de sagrado. Alguns espaços não precisam de muita pompa nem de suntuosidade para alcançar fulgência, a sua riqueza e valor nascem dos seus homenageados. Contudo, ainda era pouco para esses gigantes da educação. Além desse espaço místico implantado nos grandes e pequenos municípios, seria necessário um dia de feriado garantido em lei, Lei Orgânica do Município. Um dia para lembrar e homenagear as/os imortais da educação do município.

Quem já esteve em uma câmara de vereador nos municípios do país, sabe que ela tem um espaço dedicado aos seus membros. Nessas casas legislativas seus membros com apenas quatro anos de mandato já tem direito de expor sua foto no mural. Bem, se vereador que não é unanimidade tem tal privilegio, muito mais deveria ter o professor[a] depois de vinte e cinco ou mais anos de dedicação.

Além da exposição da foto, melhor seria quando da data da aposentadoria, todo professor[a] fosse homenageado como acontece em algumas corporações. A escola, os alunos, os pais e as autoridades – políticas, religiosas - fazendo belos discursos e gestos em agradecimento pelo tempo de serviços dedicado a educação da cidade. Hino nacional tocando, culto ecumênico, um dia inteiro dedicado ao professor aposentado que dedicou às crianças e aos jovens os melhores anos de sua vida. E, ao final das comemorações o último grande gesto, a exposição da foto ao lado dos demais imortais.

Tornar-se um imortal em vida foi busca incansável de muitos pensadores e artistas. Homens e mulheres que por meio da música, da literatura, da política, da pintura, da educação se tornaram abençoados com a imortalidade. A Nona Sinfonia imortalizou o ‘surdo’ Beethoven, as Obras Filosóficas imortalizaram os gregos Platão e Sócrates, Dom Quixote ao retratar a decadência da idade média imortalizou Miguel Cervantes e a Mona Lisa com seu sorriso enigmático imortalizou Leonardo da Vinci. Esses são alguns, de muitos, que ficaram imortalizados por suas obras.

A religião cristã prega a imortalidade desde sempre. Diz que aquele que crê até o fim, viverá além da morte. Esse princípio de vida eterna revolucionou o mundo e a vida humana. Muitos demoraram a entendê-la e ainda hoje não é fácil, senão pela fé. “A imortalidade é um eterno processo. A morte e a imortalidade”, diz Kundera, “formam uma dupla indivisível, mais bela que Marx e Engels, que Romeu e Julieta, que Laurel e Hardy”.

Pela fé os professores[as] já vivem a imortalidade. Por que no Brasil os professores em sua maioria professam a fé cristã e mesmo os que não professam tem uma esperança para além deste mundo. Contudo, diferentemente da espiritual a imortalidade terrena se dá pelo reconhecimento da obra realizada. 

Todo professor merece ser reconhecido pelo o que faz no dia a dia, mas aqueles que aposentam neste ofício merecem muito mais, merecem o título de imortal. Merecem não pela obra de reconhecido valor literário, exigida pela ABL, que a maioria ainda não escreveu. Nem pelos tratados filosófico-políticos que ainda não publicaram. Nem pelas “Mona Lisas” que ainda não pintaram.

As obras destes imortais são muito mais preciosas e de valores imensuráveis. São obras escritas, pintadas, gravadas na alma de homens e mulheres espalhadas pelos quatro cantos das grandes e pequenas cidades. Essas obras podem ser encontradas nas prefeituras, nas câmaras legislativas, nos hospitais, nos campos, nos lares, nas repartições públicas. Ou seja, onde houver alunos ou ex-alunos exercendo alguma atividade no município alí está a razão da imortalidade de um professor.

A imortalidade alcançada por Beethoven, Leonardo Da Vinci, Platão e Sócrates em séculos e até milênio é bem diferente de tantos outros que exerceram ofícios semelhantes.  Tudo depende de como se realiza o ofício. Esboçar a planta de uma casa e colocá-la de pé qualquer arquiteto é capaz. Contudo, o que Oscar Niemeyer realizou vai para além de simples arquitetura, vai para a história.  Não é o simples fazer por fazer que tornam os professores[as] imortais, mas aquilo que fazem diferenciados dos demais, como pessoas únicas que são é que os tornam vivos para sempre.

De modo que todo professor[a] aposentado[a] já é digno do título de imortal. O que vai garantir a sua memória viva, nos séculos vindouros, é o conjunto da obra realizada nos vinte e cinco anos de dedicação. O Apóstolo Paulo deixou uma receita pronta que continua viva para quem anseia que seu trabalho seja duradouro: “ainda que conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria”.

Portanto, professor[a], seja imortal! Mas, deseje que a sua imortalidade ecoe pela vida e se estenda pela história. Que os seus alunos e compatriotas ao contemplarem a sua foto na parede daquele espaço simples e sagrado, não seja como aquelas expostas nas Câmaras Legislativas, que não dizem muito. Que ela seja capaz de transportar os visitantes de volta ao tempo de seu ofício em sala de aula. Lembranças que o tempo não apagam, porque são eternas. Que seja uma experiência similar àquela quando nos deparamos em frente à Mona Lisa ou quando lemos Miguel Cervantes e Victor Hugo. Experiência que nos tira do nosso mundo e quando voltamos já não somos os mesmos, e a nossa realidade também já é outra.
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Por: José Alves Nunes - Bacharel Licenciado em Filosofia - PUC/MINAS e Filosofia da Educação - ISTA/MINAS                               /                              nunespuc@yahoo.com.br 
Por: Elinete Santos Andrade - Licenciada em Pedagogia - UNOPAR / PR  e Letras - UNIMES / SP; Pós Graduada Psicologia da Educação - FRFCL/BA net.a_23@yahoo.com.br